sábado, 26 de novembro de 2016

Soneto de Separação


De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas úmidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto


Pela primeira vez eu escrevo, aqui, com tristeza... É que aconteceu de o meu caminheiro, companheiro de aventuras (e desventuras também) seguir sozinho por um caminho de Luz e Amor. Cesar José Pasin, o meu amado,  faleceu no dia 29 de outubro de 2016. tendo como causa uma infecção generalizada. Agora, ele está nos braços do Pai, onde nos encontraremos novamente.

Pasin era portador de uma doença renal policística, de causa hereditária, caracterizada pelo surgimento e crescimento de múltiplos cistos renais bilaterais, que levam a perda da função dos rins. Lamentavelmente, ainda não há cura nem tratamento eficaz contra a doença. Em maio deste ano, iniciamos hemodiálise e o processo para transplante renal. Quando recebemos o resultado da minha compatibilidade, comemoramos emocionados!

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama



Mas, infelizmente, antes  que pudéssemos concluir o processo, faltando apenas dois exames e a documentação para realizarmos o transplante, uma bactéria se instalou nos cistos dos rins do meu amor, onde os medicamentos não conseguiam penetrar, e a bactéria se espalhou pelo corpo dele... Ele foi valente, como sempre, e lutou bravamente com força e honra. Todavia,  não resistiu... Hoje, em homenagem ao meu amado, eu gostaria de lhes contar um pouco de como ele pensava, sentia e vivia a vida terrena.

De repente não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Cesar Pasin era otimista, gostava de ver o lado bom e positivo das coisas. Detestava falar de doenças, tragédias, dores e tristezas ou dar evidência a algo ruim... Sempre que eu fazia uma postagem, antes de publicar, eu pedia a ele que fizesse a leitura e correção dos textos. Se eu escrevesse algo negativo ele pedia: "Tira isso. As pessoas tem o péssimo hábito de dar mais ênfase as coisas ruins do as coisas boas. Você escreve mil coisas legais, se houver uma única coisa ruim, as pessoas lembrarão precisamente dela".

Eu não pude deixar de escrever algo tão triste e doloroso sobre ele, hoje. Entretanto, eu peço a vocês que se esforcem em lembrar dele com alegria, porque é como ele gostaria de ser lembrado. Eu sei que é triste o fato de Pasin não ter realizado o nosso sonho de viajar pelo mundo no nosso caminhão-casa. Mas, ele foi engenheiro e adorava construir coisas, planejar coisas e executa-las. Ele curtiu muito construir o caminhão, estudar cada detalhe, discutir... Para ele, as coisas só tinham sentido se pudessem ser saboreadas desde o começo. O fim era só um coroamento!







Pensem bem: Nós poderíamos ter comprado um motorhome prontinho, lindo de viver, e teríamos viajado nele nesses últimos seis anos. Ao invés disso, preferimos viajar de carro e construir o nosso Caminheiro. O meu amado era um homem engenhoso: Ele gostava de estudar, pesquisar, dialogar, trocar ideias, informações e projetar... Ele saboreava cada pequena coisa. Lembram que nós contamos a vocês que a primeira coisa que compramos no caminhão foi a tração em Construindo um sonho: Etapas.? Festejamos a compra da tração, do caminhão, de cada peça, de cada detalhe! Para cada aquisição, fizemos uma festinha particular!



Nós poderíamos ter viajado o mundo numa "camper", nosso amigo Postigo nos apresentou a sua, quis nos emprestar para que pudéssemos sentir o gostinho e comprássemos a nossa... Mas, meu lovinho e eu não quisemos! Agradecemos ao amigo e ficamos com o nosso projeto mesmo. Foi uma escolha acertada porque parte do prazer foi planejar, a outra parte do prazer foi construir. Parte da alegria de viver os últimos anos foi sonhar, outra parte colocar o sonho em movimento. E só por isso ter nos feito felizes já valeu a pena!






Nós tínhamos condições de viajar de avião, de barco, transatlântico... Sei lá! Mas, gostávamos mesmo era de planejar as viagens: Olhar no mapa, calcular dias e distâncias, calcular valores, pesquisarmos o que fazer quando chegássemos lá. Quantas vezes o planejamento e a viagem foram mais demorados que nossa estadia em uma cidade? Nem sei... Quando fomos para o Chile por exemplo, ficamos muito mais tempo na estrada do que naquele país.


E quando fomos ao Peru,  e Uruguay também. Aliás, no Uruguai só ficamos um dia (Mas, atravessamos o país para chegar lá). É claro que o objetivo nunca foi apenas chegar! Nossa felicidade morava no caminho e no caminhar... Vocês entendem, agora, porque "Caminheiros"? Então, não valorizem demasiado o fato de nós dois não termos feito, juntos, da vida um quintal com nosso Caminheiro. Antes, exultem de alegria por termos planejado e executado nosso projeto, porque essa felicidade foi vivida intensamente e compartilhada com vocês!









Outra coisa em que quero lançar luz, aqui e agora, é sobre o fato de como Pasin viu o fim da vida terrena de nossos pais; Quando eu conheci Pasin, meu pai havia falecido há pouco mais de um ano. Eu ainda estava muito triste com isso. Então, Pasin me contou que, quando o seu pai faleceu, ele chorava segurando a alça do ataúde. Um amigo de seu pai se aproximou e lhe disse: "Não chore. Seu pai foi um homem feliz.  Gozou a vida como bem quis e a encerra com  êxito, como tudo em que se propôs a fazer". Naquele momento ele cessou seu pranto e, ao me dizer isso, ele cessou o meu por meu pai.




E, se isso serve de consolo para nós, é bom lembrar que Cesar José Pasin foi um homem inteiro em tudo: Executou com excelência a sua função no Exército Brasileiro, na Engenharia e encerrou sua carreira quando o serviço burocrático não lhe dava mais prazer. Tornou-se advogado e exerceu a advocacia até o fim de sua vida, sem máculas em sua vida profissional. Foi um advogado sem nenhuma causa perdida.





Amou intensamente e foi intensamente amado. Viveu uma vida feliz, com uma qualidade que poucos experimentaram. Realizou muitos sonhos e foi um sonhador até o fim. Não se enganem: Em qualquer tempo, com qualquer idade, Pasin teria partido da vida com sonhos a realizar. Afinal, antes mesmo de concluir um projeto, ele já tinha outros tantos no papel. Sim, ele foi um sonhador! Mas, seus feitos e realizações foram muitos e em tudo foi inteiro e exitoso! Esta foi outra coisa que ele comentou comigo a respeito de meu pai: "Não dê ênfase ao que ele não realizou. Lembre que ele foi "façanhudo" e isso vale mais que qualquer sonho não concretizado"!



A vida terrena terminou para Pasin. Ele cumpriu sua missão, guardou as armas e agora descansa em Deus. Um dia, por certo, terminará para cada um de nós também. Mas, eu e ele somos Cristãos. Eu digo que somos porque, pela nossa fé, ele vive agora com os santos e santas. Nós dois cremos na ressurreição e sabemos que - é bíblico - o amor não acaba com a morte da matéria. Assim, nossa história não termina aqui. Em verdade, nossa história não termina: Nossas almas são eternas como é eterno o nosso amor!



Pasin e eu vivemos um casamento de almas, não foi preciso que jurássemos solenemente, não foi necessário fazer festa com pompa e circunstância. O nosso amor,  nossa lealdade e fidelidade foram vivenciados por nós num convívio alegre e salutar. Fomos um casal que viveu amorosamente  na alegria e na tristeza, com dinheiro e sem dinheiro, na saúde e na doença. Agora, a morte nos separou. Contudo, meu amado está em Deus, que está também em mim. Assim, permanecemos um no outro. Quando for da vontade de GADU, caminharemos, outra vez, juntos na eternidade!






Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente não mais que de repente

Soneto de Separação - Vinícius de Moraes


Segue o teu caminho de Luz, meu guerreiro, meu amado caminheiro. Nossos caminhos se encontrarão novamente na eternidade! 







quinta-feira, 26 de maio de 2016

Tríplice Fronteira ou: Começaria tudo outra vez!

"Começaria tudo outra vez
 Se preciso fosse, meu amor
 A chama em meu peito 
 Ainda queima, saiba:
 Nada foi em vão..."

Outro dia alguém me perguntou: "Quando tempo você e Pasin estão juntos?". Eu não soube responder... Perguntei a ele e... Ele também não soube! É que a gente não sentiu o tempo passar. Sabe quando você está numa festa tão legal que você não vê o tempo passar? Então... Nosso relacionamento é assim. Mas nós arrumamos um jeito de "medir o tempo": Usamos passeios e viagens. Só que não exatamente medimos, nós estimamos o tempo. Estimamos não de estimativa, mas de estima ativa!

É tipo: " Lembra quando nos demos conta de que o Peru era pertinho? De que era quase tão perto ver o Pacífico quando visitar a sua mãe?".  Daí a gente procura as fotos, num arquivo imenso. E vai se aproximando da data com associações: "Nós fomos naquele seu carro... Você encontrou sua amiga, ela tava grávida". E assim a gente vai estimando o tempo. Estimando de gostar, estimando de querer bem. Porque todo o tempo bem vivido é estimado com amor!

Como ando um tanto emotiva- piegas mesmo -  me permitirei ser cafona, ridícula e brega. E daí? Já dizia o poeta que "cartas de amor são ridículas". Considerem esta postagem uma carta de amor: Amor a pessoa amada, amor a vida, amor pela história que estamos escrevendo juntos e que vocês podem ler, aqui, parte dela. A história de hoje aconteceu em um tempo indefinido, num dia em que nós estávamos em Cobija e resolvemos dar uma esticada até a Estrada para o Pacífico. 




O caminho estava bom, recém pavimentado, bonito de se ver. Fomos percorrendo e gostando... Chegamos a Assis Brasil. Gente, era tão legal sair assim, sem plano, sem hora pra voltar! Resolvemos entrar na cidade. Paramos em uma ladeira. Eu desci uma parte para... Sabe que eu nem sei pra que? Mas sei que subi nas carreiras, pés descalços no asfalto, peito cheio de contentamento! Avançamos um pouco mais. A cidade faria aniversário e as crianças treinavam uma apresentação. Coisa mais bonita!









Vê-los tão sorridentes e empenhados nos alegrou a alma. Não é assim? "Coração em paz vê festa em toda aldeia"! Resolvemos procurar a "Tríplice Fronteira": Brasil, Bolívia e Peru. Soubemos que havia um marco, denominado " Marco Rondon". Fomos até lá. Um pequeno rio separa os três países. Raso, se pode atravessar  à pé. Pasin me explicou como se dava a questão legal da nacionalidade daquelas pessoas nascidas ali...






Nas fotos, eu com menos peso, menos rugas, sem cabelos brancos e sem toda essa bagagem e histórias de um lindo amor e de uma vida tão bem vivida! No meu peito, um coração apaixonado e no meu olhar a festa  de poder ver as fronteiras, secas e molhadas, de países tão belos e de poder vivenciar tudo isso ao lado de quem eu escolhi estar! E o melhor de tudo: De quem me escolheu! Naquela altura, ainda não pensávamos no Caminheiro. Mas, já sonhávamos com viagens ao Peru e a tantos outros lugares....






Resolvemos testar os limites nacionais. Não sabíamos o que era preciso para adentrarmos no País vizinho e fomos chegando devagar... Passamos a ponte, a aduana e foi então que soubemos: "Passou da hora de fazer a internação, agora só amanhã...". Tudo bem. Não estávamos preparados para isso, ainda... Mas, já era bem legal estarmos ali. Naquela noite, nós voltamos para o Brasil com a cabeça borbulhando em idéias. Nossa... Nós podíamos ir ao Pacífico, podíamos conhecer o Peru,.. Uau!





"Então eu cantaria a noite inteira
 Como já cantei e cantarei
 As coisas todas que eu tive,
Tenho e sei, um dia terei"

Isto se deu há algum tempo... Nós já estávamos juntos há um tempo bom... Só não nos perguntem quanto! E, depois desse dia, fizemos tantas outras coisas juntos, tantos passeios, viagens que eu ainda não contei aqui. É que a maioria das coisas que vivemos, fizemos e experimentamos nós não fotografamos ou registramos, mas estão na nossa lembrança, na nossa história e o que foi vivido é um tesouro que não pode ser roubado, graças a Deus por isso!

O tempo passou de repente e hoje estamos concluindo a nossa casinha andante. Eu sei... Faz um tempo bom que o estamos construindo e algumas pessoas nos perguntam: "Mas, ainda não ficou pronto?". Muitas vezes pensamos em desistir, muitas vezes nos questionamos se valia o preço, se valia a espera se valeria insistir... Porque nós somos insistentes, persistentes. E, como dizem por essas paragens: Somos brasileiros e não desistimos nunca! Pode demorar, mas nós viveremos o sonho de rodar com a nossa casinha! E por falar nela, deem uma olhada na belezura que está ficando:
















E, como eu disse no começo da postagem, vou  me permitir expor aqui a minha paixonite aguda, meu vício, ou ainda, numa linguagem mais juvenil, meu "crush" pelo Caminheiro, pelo Pasin, pela vida! Escolhi este bolero como tema musical ( Já falei que minha vida tem trilha sonora) do filminho magia que o Fábio, da Ribeiro Trailler enviou. E como prêmio, recebi o sorriso do meu amado e, espero, o de vocês também!



" A fé no que virá
  E a alegria de poder
  Olhar pra trás
  E ver que voltaria com você
  De novo, viver neste imenso salão

  Ao Som desse bolero
  Vida, vamos nós
   E não estamos sós
   Veja, meu bem
   A orquestra nos espera
   Por favor, mais uma vez
   Recomeçar"

Começaria Tudo Outra vez - Gonzaguinha

Soneto de Separação

De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas úmidas fez-se a espuma E das mãos espalmadas fez-se o es...